Luciano J. Alvarenga
Mestre e doutorando em Ciências Naturais pela Ufop; Bacharel em Direito pela UFMG; assessor no MPMG

Luciano J. Alvarenga

Foi durante o século XIX, conta a cientista política Heloisa Maria Murgel Starling, que a mais antiga tradição do pensamento social e político brasileiro, o republicanismo, passou a incluir em sua pauta de discussão a temática da reforma agrária. Antes, contudo, esse ideário já havia tomado a forma de uma utopia na poesia de um mineiro com particular sensibilidade sociopolítica, Manuel Inácio da Silva Alvarenga.

Silva Alvarenga foi um poeta importante na formação de uma sensibilidade literária propriamente brasileira. De acordo com Heloisa Starling: “Sua poesia foi provavelmente a primeira, na América portuguesa, a misturar ao bucolismo da Arcádia o brilho da paisagem tropical manchada de cores, e a deixar de lado os pastores de carneiros e ovelhas para preocupar-se com a fauna do Brasil – atravessam seus versos, por exemplo, cobras, onças de variada espécie, morcegos e muitos beija-flores”.

E o poeta mineiro também sonhou um projeto político e social… Esse projeto previa a criação da República do Tagoahy, uma comunidade rural onde homens e bichos convivem harmonicamente, onde a verdade mora na natureza, a miséria não é de ordem fatal, os corações permanecem puros e límpidos e onde o contato com a vida pulsante na Terra protege os habitantes da angústia de viver.

Silva Alvarenga levou esse projeto a sério. Conta-se que, repetidas vezes, pensou em abandonar o Rio de Janeiro, embrenhar-se no sertão e requerer uma sesmaria “nas cabeceiras ou no sertão do Rio Itaguaí”. Vem do leito desse rio, a propósito, a inspiração para o nome “Tagoahy”. No vocabulário Tupi, a expressão deriva da articulação de dois termos: tagoa, que quer dizer “amarelo”, e hy, “água”. Na sociedade imaginada por Silva Alvarenga, era “melhor viver entre os bichos do que entre os homens maus”.

Lamentavelmente, o poeta mineiro não conseguiu concretizar a requisição de uma sesmaria. Sua república “permaneceu para sempre um lugar não destinado, uma espécie de não lugar – u-topos”. Mas é certo também, complementaria Heloisa Starling, “que seu modelo de comunidade indexou, pela primeira vez, na América portuguesa, à ideia de república o ideal de uma vida ligada a uma terra desfrutada por todos”.

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Citações: STARLING, Heloisa Maria Murgel. Utopia e sentimento de República. Jornal Estado de Minas, Caderno Pensar, Dossiê Reforma Agrária. Belo Horizonte: 09 jan. 2010.